Quando passamos por uma rua chamada Teodoro Sampaio ou encontramos esse nome no mapa de dois municípios brasileiros, um na Bahia e outro em São Paulo, raramente imaginamos a dimensão do personagem homenageado. Teodoro Fernandes Sampaio foi engenheiro, geógrafo, cartógrafo, historiador, etnógrafo, escritor, urbanista e político. Em uma época na qual o conhecimento sobre grande parte do território brasileiro ainda era incompleto, ele percorreu rios e sertões, elaborou mapas, projetou sistemas de saneamento, estudou línguas indígenas e deixou contribuições importantes para a compreensão da formação histórica e geográfica do país.
Seu nome era originalmente grafado “Theodoro”, forma encontrada em documentos da época e em muitas publicações atuais. Nascido em 7 de janeiro de 1855, no Engenho Canabrava, em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, era filho de Domingas da Paixão do Carmo, uma mulher negra escravizada. As informações sobre sua paternidade divergem entre os biógrafos, embora as versões mais conhecidas associem sua criação ao padre Manuel Fernandes Sampaio. Teodoro teria sido libertado na pia batismal, enquanto alguns de seus irmãos permaneceram escravizados. Anos depois, quando já trabalhava como engenheiro, ele comprou a liberdade de três deles. Sua trajetória deve ser compreendida dentro de uma sociedade escravocrata, profundamente marcada pelo racismo e por enormes barreiras ao acesso da população negra à educação e às profissões de prestígio. (Intelectuais Negros, da Universidade Federal Fluminense)
Ainda criança, Teodoro deixou a Bahia e seguiu para o Rio de Janeiro, onde estudou no Colégio São Salvador. Em 1871, ingressou no curso de Engenharia Civil da então Escola Central, posteriormente integrada à Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Durante sua formação, estudou ciências físicas, matemática, desenho, topografia e engenharia. Também foi aluno de André Rebouças, outro grande engenheiro negro brasileiro e importante militante abolicionista. Para se sustentar, Teodoro trabalhou como professor e como desenhista no Museu Nacional, atividade que contribuiu para desenvolver a precisão gráfica que mais tarde apareceria em seus mapas e levantamentos de campo. Segundo a Câmara dos Deputados, ele concluiu sua formação em engenharia em 1876. (Câmara dos Deputados)
No início da carreira, Teodoro participou de estudos relacionados aos portos de Santos e do Rio de Janeiro. Em 1879, foi escolhido para integrar a Comissão Hidráulica do Império, criada durante o governo de D. Pedro II para estudar portos, rios e condições de navegação. Era o único engenheiro brasileiro em uma equipe formada também por especialistas norte-americanos. Entre eles estava o geólogo Orville Derby, com quem Teodoro estabeleceu uma longa colaboração profissional e intelectual.
A participação nessa comissão levou Teodoro Sampaio a uma das experiências mais importantes de sua vida: a expedição pelo rio São Francisco e pela Chapada Diamantina. O trabalho exigia muito mais do que conhecimentos de engenharia. Era necessário observar o relevo, medir distâncias, registrar cursos de água, identificar possibilidades de navegação e compreender as condições econômicas e sociais das regiões percorridas. Suas anotações reuniam informações sobre a natureza, as populações, as atividades produtivas, as cidades e os caminhos do interior do país.
Esses estudos deram origem, anos depois, ao livro O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina, uma de suas obras mais conhecidas. O texto reúne observação científica, descrição geográfica e relato de viagem, oferecendo um retrato valioso do sertão brasileiro no final do século XIX. Posteriormente, Teodoro tornou-se engenheiro-chefe da Comissão de Desobstrução do Rio São Francisco e também trabalhou no prolongamento da estrada de ferro que ligava Salvador à região do grande rio. (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia)
Em 1886, sua carreira entrou em uma nova fase. Teodoro foi convidado a trabalhar na recém-criada Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo, instituição encarregada de estudar e mapear o território paulista. Aos 31 anos, chefiou a primeira expedição de levantamento topográfico e geográfico da comissão. Naquele período, o avanço da cafeicultura, das ferrovias e da ocupação econômica tornava urgente a produção de mapas confiáveis. Era preciso conhecer rios, serras, solos, caminhos e limites territoriais para planejar estradas, cidades e atividades produtivas.
O trabalho desenvolvido por Teodoro ajudou a ampliar o conhecimento sobre o interior de São Paulo. Seus levantamentos combinaram observação direta, medições de campo e representação cartográfica. A cartografia, para ele, era uma ferramenta essencial para compreender o território e orientar decisões públicas. Ao transformar rios, montanhas e caminhos em mapas, Teodoro contribuía para tornar visível um país que ainda conhecia muito pouco de si mesmo. (Instituto Geológico de São Paulo)
Sua contribuição para São Paulo ultrapassou os trabalhos de exploração geográfica. Entre o final do século XIX e o início do século XX, ele ocupou posições importantes na administração pública paulista e participou do planejamento da infraestrutura urbana. Chegou ao cargo de diretor e engenheiro-chefe do saneamento do estado, função que exerceu durante um período de crescimento acelerado da capital. A cidade recebia milhares de novos habitantes, enquanto enfrentava epidemias, falta de água tratada, moradias insalubres e redes de esgoto insuficientes.
Teodoro participou de projetos relacionados à captação e à distribuição das águas da Cantareira, ao saneamento de áreas urbanas e aos estudos sobre os rios paulistanos. Presidiu também uma comissão encarregada de examinar habitações operárias e cortiços no distrito de Santa Ifigênia. Sua atuação ocorreu em um contexto histórico complexo, no qual as necessárias políticas de saneamento frequentemente se misturavam a ideias higienistas e preconceituosas contra a população pobre. Ainda assim, a presença de um intelectual negro na direção de importantes obras públicas, em uma sociedade que havia abolido a escravidão havia poucos anos, constitui um feito extraordinário. (Revista Terra Brasilis)
Teodoro também participou das discussões que levaram à criação da Escola Politécnica de São Paulo, em 1893, e foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 1894. Nessas instituições, aproximou a engenharia da geografia, da história e do estudo da sociedade. Para ele, conhecer o território brasileiro exigia compreender tanto suas características naturais quanto a trajetória dos povos que o habitavam.
Essa visão aparece com clareza em O Tupi na Geografia Nacional, publicado em 1901. Na obra, Teodoro estudou a presença da língua tupi nos nomes de rios, serras, plantas, animais, cidades e regiões brasileiras. Ele demonstrou que os topônimos de origem indígena guardavam informações sobre as características dos lugares e constituíam registros da história do território. Nomes repetidos diariamente pelos brasileiros podiam revelar a aparência de um rio, a vegetação de uma região ou a presença de determinado animal. Seu interesse pelo tema também resultou em estudos sobre outros povos indígenas, entre eles os Krahô do rio Preto, acompanhados de vocabulário e carta etnográfica.
No início do século XX, Teodoro regressou à Bahia, onde continuou trabalhando como engenheiro e urbanista. Elaborou uma planta cadastral de Salvador e apresentou propostas para a modernização dos sistemas de água e esgoto da capital baiana. Também projetou edifícios, realizou estudos urbanos e, em 1919, produziu o plano para a chamada Cidade da Luz, empreendimento que contribuiu para a formação do atual bairro da Pituba.
Paralelamente à engenharia, dedicou-se cada vez mais à pesquisa histórica. Estudou a fundação de Salvador, a ocupação do território brasileiro, as antigas igrejas, a catequese dos povos indígenas e o papel das expedições sertanistas na formação do país. Entre suas publicações estão Atlas dos Estados Unidos do Brasil, O Tupi na Geografia Nacional, O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina e diversos estudos históricos, geográficos e etnográficos. Sua História da Fundação da Cidade do Salvador foi publicada postumamente.
Teodoro manteve contato com alguns dos principais intelectuais brasileiros de seu tempo. Um deles foi Euclides da Cunha, a quem forneceu informações, mapas e conhecimentos sobre o sertão baiano. Antes de escrever Os Sertões, Euclides consultou materiais produzidos pelo engenheiro e se beneficiou de sua experiência direta na região de Canudos e da Chapada Diamantina. Essa colaboração mostra como o trabalho de Teodoro influenciou também uma das obras fundamentais da literatura brasileira.
Na Bahia, teve participação destacada no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, instituição que chegou a presidir. Foi ainda sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, presidiu o V Congresso Brasileiro de Geografia, participou da fundação da Academia de Letras da Bahia e, já na maturidade, ingressou na política. Em 1927, tomou posse como deputado federal pela Bahia, exercendo o mandato durante a legislatura de 1927 a 1929. Em 1937, pouco antes de sua morte, presidiu em Salvador o Segundo Congresso Afro-Brasileiro, encontro dedicado ao estudo e à valorização das culturas negras no Brasil.
Teodoro Sampaio faleceu no Rio de Janeiro em 11 de outubro de 1937, aos 82 anos. Ao longo da vida, recebeu reconhecimento em círculos científicos e profissionais, porém sua presença na memória popular tornou-se muito menor do que a importância de suas realizações. Seu nome permaneceu em ruas, escolas e cidades, embora muitas pessoas desconheçam a história que existe por trás dessas homenagens.
Conhecer Teodoro Sampaio significa descobrir um personagem que reuniu ciência, serviço público e profundo interesse pelo Brasil. Ele ajudou a mapear regiões ainda pouco conhecidas, participou da modernização de grandes cidades, estudou a contribuição indígena para a geografia nacional, produziu trabalhos históricos e abriu caminhos em ambientes profissionais dos quais os negros eram sistematicamente excluídos. Sua vida revela a capacidade de transformar conhecimento em ação e mostra que a construção do Brasil também passou pelas mãos, pelos mapas e pelas ideias de um dos maiores intelectuais negros de nossa história.